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Resistência Apologética

Resposta ao vídeo do Conde Loppeux sobre Lutero e os deuterocanônicos





Em um grupo de debates, um determinado católico, o Paulo Henrique, me pediu para refutar o Conde Loppeux. Trata-se do Leonardo Olivaria ( o figurinha aí de cima). Pois bem, peguei um vídeo recente (veja aqui) onde ele brevemente aborda a questão dos deuterocanônicos e afirma que Lutero adulterou sim a Bíblia.

Resumidamente as objeções do Conde (Leonardo Olivaria) em seus 8 minutos e 43 segundos de vídeo são como se segue abaixo numeradas em 11 "argumentos" marcados em vermelho, e que por sua vez passo a responder.


1- Lutero adulterou a Bíblia seguindo uma tradição completamente estranha à fé Cristã ao rejeitar os deuterocanônicos.

Resposta: A verdade é que Lutero rejeitou os apócrifos/deuterocanônicos seguindo exatamente a evidência esmagadora que pesa contra tais livros. Uma destas evidências é a própria Tradição da Igreja que, por séculos repudiava tais livros como canônicos. No entanto, quanto ao numero de livros que trazem sua versão, Lutero não excluiu os apócrifos/deuterocanônicos, sua versão alemã continha exatamente 73 livros como as Bíblias Católicas. A Biblia de Lutero na versão de 1545 pode ser vista digitalizada aqui..(clique aqui) Contendo todos os mesmos livros que a Bíblia Católica.


2- Os protestantes quanto ao cânon Bíblico seguem uma tradição que não é cristã.

Resposta:
Se esta suposta tradição a que se refere for a que definitiva e dogmaticamente aceita os apócrifos/deuterocanônicos como de mesma inspiração e autoridade que os demais canônicos, informo ao Leonardo que a tal é tardia e só foi decretada em Trento no ano 1546 como o próprio Leonardo Olivaria menciona em seu vídeo. Antes disso, a questão dos tais livros é, como se esclarece na própria Enciclopédia Católica:

"Na Igreja latina, através de toda a Idade Média achamos evidência de hesitação acerca do carácter dos deuterocanônicos. Há uma corrente amistosa para com eles, outra distintamente desfavorável para com a sua autoridade e sacralidade, enquanto oscilando entre ambas há um número de escritores cuja veneração por estes livros é temperada por certa perplexidade acerca da sua posição exata, e entre eles encontramos São Tomás de Aquino. Encontram-se poucos que reconheçam inequivocamente a sua canonicidade. A atitude prevalecente dos autores ocidentais medievais é substancialmente a dos Padres gregos".
(George J. Reid, Canon of the Old Testament, em The Catholic Encyclopedia, 1913 [vide online http://www.newadvent.org/cathen/03267a.htm)

Deste modo, a posição dos protestantes quanto ao cânon, é a mesma que a dos judeus palestinos da era pré-cristã, é a mesma posição de Jesus e seus apóstolos e é a mesma que a dos muitos pais da igreja antiga que conheciam, mas não reconheciam os apócrifos/deuterocanônicos como de mesma autoridade e inspiração que os demais já aceitos. Esta é a tradição da fé Cristã.

3- A discussão sobe o cânon também incluía livros do Novo Testamento.

Resposta:

Quem bem nos relata sobre tais discussões é Eusébio de Cesareia em sua História Eclesiástica, no livro 3, capítulo 25, versos 1-7. Nisto ele enumera 4 categorias que os cristãos primitivos dispunham os livros que mais tarde formariam o cânon completo. Uma destas categorias era a dos livros Reconhecidos ou Admitidos que incluíam os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as epístolas de Paulo (incluindo Hebreus), I João, I Pedro, e Apocalipse (embora ele reconheça que este último tenha alguns detratores). Dito de outra forma, Eusébio reconhece que já havia um "núcleo" canônico (22 dos 27 livros) no cristianismo, já bem aceito, antes do século IV. 

Outra categoria citada é a dos livros disputados ou discutidos e nela estavam Tiago, Judas, II Pedro, II e III João. Estes são livros que levantaram alguma discordância eclesiástica, mas ainda assim, são considerados como canônicos porque eles "são, no entanto conhecidos da grande maioria" (3.25.3) como diz Eusébio e tratam dos menores livros. A combinação destes livros reconhecidos descritos acima e os livros em disputa, juntos, formam o nosso cânon atual de 27 livros.

Eusébio ainda nos relata sobre os livros rejeitados, como o Pastor de Hermas, o Didaquê, o Evangelho dos Hebreus, o Apocalipse de Pedro e a Epístola de Barnabé. Estes apesar de serem apreciados, não tinham status canônico. Por fim, ele nos dá uma lista de livros apócrifos que seriam o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Matias, os Atos de André, e os Atos de João. Apócrifos porque são heréticos, contradizem os outros acima e são livros teologicamente problemáticos, falsos e que têm pouco ou nenhum valor para a igreja. São "falsificações" que Eusébio considera como "inteiramente absurdos e ímpios" (3.25.7).

Resumidamente embora houvesse uma breve discussão acerca dos livros do NT que logo foi resolvida sem deixar duvidas, isso não é o mesmo que se pode dizer dos livros do Antigo Testamento posto que até o século XVI ainda muitos rejeitavam os deuterocanônicos. Alias, as discussões não se tratavam de inclusões no cânon e sim a pertença de alguns livros já aceitos por muitos mas ainda discutido por outros como o é o caso de Apocalipse.

Veja mais sobre o desenvolvimento canônico do Novo Testamento (aqui) e (aqui).


4 - Os judeus palestinos não tem relevância para o reconhecimento do cânon pois eles rejeitaram a Cristo e rejeitam ao Novo Testamento.

Resposta:
Da mesma forma por rejeitarem a Cristo e ao Novo Testamento não deveríamos portanto desconsiderar o suposto cânon alexandrino da Septuaginta que os católicos tanto apelam ao defender os  apócrifos/deuteros? A Septuaginta foi elaborada por quem? por marcianos? Há de se escolher entre os judeus palestinos a quem Paulo chama de guardiões e só aceitam 39 livros, ou aos alexandrinos que não só tinham em sua versão os livros aceitos por Roma como também outros. Se quer ajuda para decidir, vá ler um pouco mais sobre as obras dos antigos padres que em maioria rejeitavam os acréscimos da Septuaginta, como Jerônimo.


5 - A tradição da Igreja que inicialmente é formada por judeus que aceitaram a Cristo, aceita os deuterocanônicos.

Resposta:

Então por que motivo estes livros foram rejeitados igualmente pelos "santos" Atanásio, Hilário, Cirilo de Jerusalém, Cipriano, Gregório Nazianzeno e Eusébio, bispo de Cesaréia, Anfilóquio e os bispos reunidos no Concilio de Laodiceia, o qual foi confirmado por um decreto do Concilio Geral em Trulo (Can.2), e que, portanto, é obrigatório para a Igreja de Roma?

Mas, falemos então dos apóstolos, JUDEUS QUE ACEITARAM A CRISTO. Comecemos por Paulo que por suas próprias palavras inspiradas pelo Espirito Santo diz:

(..)porque aos judeus foram confiadas as palavras de Deus. (Romanos 3:2)

Aqui Paulo não está se referindo aos judeus que se converteram a Cristo, ele se refere aqueles do antigo pacto a quem lhes foi confiado a revelação de Deus expressa no Antigo Testamento. E eles só reconheciam, como o fazem até ao dia de hoje, os mesmos livros, que embora em ordem diferente, correspondem aos 39 que os protestantes reconhecem. Os judeus conheciam os apócrifos, mas os rejeitavam e não os aceitavam como inspirados por Deus. 

A maior testemunha sobre o que seria a tradição da igreja no primeiro século é o próprio Novo Testamento e:

"O Novo Testamento cita os Apócrifos? A resposta é um categórico não. Não há uma simples citação de qualquer dos 14 ou 15 livros. Sem dúvida os escritores do Novo Testamento sabiam da existência destes livros. Contudo, nem em uma simples instância é algum deles citado, tanto como Escritura inspirada, ou autoridade, ou em qualquer forma. Nem em um simples caso é um deles citado de qualquer forma ou propósito. O professor C. C. Torrey, que, em seu The Apocryphal Literature, lista um grande número de alegadas citações ou alusões apócrifas, é forçado a admitir do Novo Testamento que “em geral, as Escrituras Apócrifas foram deixadas despercebidas” (pág. 18). As alegadas citações são de livros fora daqueles sob consideração aqui, os Apócrifos. Um exemplo é a citação de Enoque em Judas. Tudo que pode ser dito é que os autores do Novo Testamento possuem algum conhecimento de antigos materiais escritos, aos quais no máximo eles aludem indiretamente, ou de fatos que eventualmente parecem em documentos tanto bíblicos como não bíblicos." (G. Douglas Young, 'The Apocrypha' em Carl F.H. Henry, ed., Revelation and the Bible: Contemporary Evangelical Thought (Grand Rapids: Baker, 1958), pág. 175.)

A maior autoridade no assunto é o próprio Cristo, que citou como Escritura a divisão tríplice dos judeus palestinos que compreendia a Lei, os Profetas e Salmos ou Escritos. Estes não incluem os apócrifos.

Então corrigindo o Conde, na verdade a tradição da Igreja que inicialmente é formada por judeus que aceitaram a Cristo, conhecia os deuterocanônicos mas não os reconheciam com status canônico.

6- Os livros deuterocanônicos já se encontravam no século IV como nos Concílios de Hipona e Cartago.

Resposta:

Embora estivessem ali mencionados todavia estes concílios do século IV foram apenas concílios locais e não eram impostos à igreja toda por serem sínodos locais carentes de autoridade vinculante para a Igreja universal; e prova evidente disso é que muitos Padres ortodoxos e diversos escritores eclesiásticos posteriores mantiveram a distinção entre os livros do cânon hebreu e os chamados apócrifos ou eclesiásticos.

Também é importante lembrar que esses livros não são parte das Escrituras cristãs (período do NT). Encontram-se, assim, sob a jurisdição da comunidade judaica que os compusera e que, séculos antes, os rejeitara como parte do cânon.

Os livros aceitos por esses concílios cristãos podem até não ser os mesmos em cada caso.  Como por exemplo I Esdras aceito por Hipona/Cartago mas rejeitado por Roma. Portanto, não podem ser usados como prova do cânon exato  do Antigo Testamento mais tarde proclamado “infalível” pela Igreja Católica Romana em 1546.

Em Hipona/Cartago, na lista de livros que se tem como canônicos respectivamente são citados dois livros distintos que são I e II Esdras. O II Esdras na verdade são os que distintamente por sua vez conhecemos como os canônicos Esdras e Neemias, já o I Esdras se refere a um apócrifo de 9 capítulos com adições ao livro de Esdras não encontradas no cânon hebreu, além de seções de Crônicas, Esdras e Neemias. Porém, apologistas católicos como Betts argumentam sobre I Esdras, que este definitivamente era o Esdras canônico que os sínodos africanos tinham em mente, e para sustentar isto ele apela a Orígenes, Atanásio, Cirilo de Jerusalém, Rufinus, e o Concílio grego de Laodicéia. Todavia eles ignoram que estas fontes na verdade entendem I e II Esdras como sendo os canônicos Esdras e Neemias quando tomam por base o cânon hebraico que sequer considera o apócrifo homônimo mais tarde nomeado de III Esdras. Já a versão Septuaginta usada e reconhecida por Hipona/Cartago, esta sim continha I Esdras (apócrifo) e II Esdras (Esdras-Neemias) e mais uma outra adição nomeada por III Esdras (IV Esdras na Vulgata).

Tanto na Septuaginta cristã, como na versão Latina antiga ou Ítala, II Esdras era o que hoje conhecemos como Esdras e Neemias. Por seu lado, I Esdras era o apócrifo que incluía algum material original sobre o retorno de Zorobabel juntamente com outro retirado principalmente de Crónicas e do Esdras canônico. Os cartaginenses assim como Hipona admitiram este livro no seu cânon. Mas na Vulgata que conheciam os prelados de Trento, I e II Esdras correspondiam a Esdras e Neemias (como assim admitiam Orígenes, Atanásio, Cirilo de Jerusalém, Rufinus, e o Concílio grego de Laodicéia quando tomavam por base o cânon Hebreu), enquanto o livro I Esdras de Cartago encontrava-se num apêndice da Vulgata como III Esdras, sendo que já havia um outro III Esdras que se tornou depois IV Esdras, que é o chamado Apocalipse de Esdras).

Em resumo, o Concílio de Trento na verdade deixou fora do seu Cânon um livro que tinha sido sancionado como canônico em Cartago. Devido a este erro, os cânones de Trento e de Cartago não são de fato iguais entre si no que ao Antigo Testamento diz respeito. Há que acrescentar que além de invalidar o decidido em Cartago, Trento ainda se contradiz na verdade também com a posição do papa Inocêncio I (dentre outros) que tinha aderido à lista cartaginesa baseada na Antiga Latina.

Outras versões e listas fazem referência a tais livros, porém também a outros não aceitos por Roma (veja aqui).


7- Trento em 1546 apenas definiu de uma vez por todas de forma dogmática os livros que já estavam na Bíblia.

Resposta:


Esta declaração do "Conde" na verdade implica que para um católico romano o Canon não foi infalivelmente decidido até Trento no século 16. Logo, para os católicos romanos, durante 16 séculos, ninguém realmente sabia com certeza o que Deus tinha realmente dito caso realmente tivessem de esperar para uma decisão definitiva, universal dogmática e infalível da Igreja Romana. 

A Nova Enciclopédia Católica tem honestidade em apontar esta evidência tão ignorada pelos virtuais apologistas católicos:

"Segundo a doutrina católica, o critério do cânon bíblico é a decisão infalível da Igreja. Esta decisão não foi dada até muito tarde na história da Igreja no Concílio de Trento. Antes deste havia algumas dúvidas sobre a canonicidade de certos livros Bíblicos, i.e., sobre a sua pertença ao cânon. O Concílio de Trento definitivamente resolveu a questão do cânon do Antigo Testamento. Que isto não havia sido feito anteriormente é evidenciado pela incerteza que persistia até o tempo de Trento”

(New Catholic Encyclopedia, Vol. I (Washington D.C.: Catholic University, 1967), p. 390).

Isto do Leonardo Olivaria para lá de ser uma objeção contra nós, na verdade sustenta a nossa posição quanto a dizer que os livros apócrifos/deuteros só foram realmente admitidos e aceitos apenas no século XVI e que antes disto sempre houveram discussões acerca deles e muita rejeição a estes. Ao bem da verdade, Roma ao aceita-los definitivamente em Trento, contradiz a própria tradição que diz preservar.

 
8- Os judeus nunca souberam qual era o cânon autentico para eles mesmos. Tiveram problemas em reconhece-lo e rejeitavam livros como Eclesiastes e Cantares de Salomão.

Resposta:

Mentira, conforme deixa claro a referencia mais antiga ao cânon do AT da história que é Josefo antes mesmo da destruição de Jerusalém, muito antes de Jâmnia, em Contra Ápio que assim escreve:

“Não temos dezenas de milhares de livros, em desarmonia e conflitos, mas só vinte e dois [que são os mesmos 39 da Bíblia protestante], contendo o registro de toda a história, os quais, conforme se crê, com justiça, são divinos.” (Resposta a Ápio, livro I, colchete acrescentado).

Outra evidência é o próprio Cristo que cita a divisão tripartida do cânon - Torah, Profetas, Escritos:

Depois lhes disse:Estas são as minhas palavras que vos falei quando ainda estava convosco: É necessário que se cumpra tudo o que está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos acerca de mim. (Lucas 24:44)

A referência aos Salmos é uma sinédoque dos denominados "Escritos". Eclesiastes e Cantares de Salomão fazem parte deles.

Até mesmo escritos dos rabinos daquela época, afirmam categoricamente que qualquer escrito posterior a Malaquias ( e isto inclui os deuterocanônicos) não poderia ser considerado canônico dado que:

“após a morte dos últimos profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias, o Espírito Santo afastou-se de Israel” (Talmude Babilônico, Yomah 9b repetido em Sota 48b, Sanhedrín 11 a, e Midrash Rabbah sobre o Cântico dos Cânticos, 8.9.3).

Está era a situação muito antes de Jâmnia que é ao que o Leonardo quer apelar. Veja na próxima objeção.

9 - Os fariseus se reuniram em Jâmnia (século I) e criaram um cânon conforme a sua tradição.

Resposta:

Que os fariseus em Jâmnia criaram um cânon no sentido de excluir os deuterocanônicos, é outra mentira. Eles apenas reafirmaram a antiga posição judaica de só reconhecer os 39 livros.

"os estudiosos concordam que o concílio não determinou quais livros pertenciam ao Antigo Testamento. Ele confirmou oficialmente o que a maioria vinha reconhecendo a várias gerações. Em outras palavras, o concílio deu o endosso oficial a certos livros, apenas confirmando o que criam ter sido sempre verdade" (Descobrindo o AT, Cultura Cristã, pg 23).
''no que dizia respeito às Escrituras, os rabinos de Jamnia não introduziram inovações. Examinaram a tradição que tinham recebido e a deixaram mais ou menos intacta. Provavelmente não é sábio falar de um Concílio ou Sínodo de Jamnia que tenha estabelecido os limites do cânon do Antigo Testamento''( F.F. Bruce, O Cânon das Escrituras (Editora Hagnos, 1a Edição, 2011), pág. 33.)

A verdade então é que os fariseus em Jâmnia se reuniram para endossar a tradição entre os judeus sobre a pertença de livros no cânon e não sobre inclusões nele. Tais discussões em Jâmnia ao fim do primeiro século, numa academia estabelecida por Yohanan ben Zakkai, não "criaram" um cânon. As discussões de fato giraram à volta da propriedade da pertença de alguns livros como Ezequiel, Cantares, Eclesiastes e Ester, que já eram aceitos. 

"O resultado dos seus debates [de Yohanan ben Zakkai e outros] foi que, pese as objeções, Provérbios, Eclesiastes, Cantares e Ester foram reconhecidos como canônicos; Eclesiástico não foi reconhecido (TB Shabbat 30 b; Mishná Yadaim 3:5; TB Magillah 7 a; TJ Megillah 70 d). "Os debates de Jâmnia não têm que ver com a aceitação de certos escritos dentro do Cânon, mas antes com o seu direito a permanecer lá" (A. Bentzen, Introduction to the Old Testament, i [Copenhagen, 1948], p. 31). Houve alguma discussão prévia na escola de Shammai acerca de Ezequiel, que já há muito estava incluído entre os Profetas, mas quando um rabino engenhoso mostrou que realmente não contradizia Moisés, como se havia alegado, se afastaram as dúvidas (TB Shabbat 13 b)."
F.F. Bruce, Tradition Old and New. The Paternoster Press, 1970, p. 133, n. 1 (TB = Talmude de Babilónia; TJ = Talmude de Jerusalém).

Muito antes de Jâmnia como mostrado na resposta para a objeção anterior, o cânon judaico já estava muito bem estabelecido e não incluía os deuterocanônicos. E ironicamente por sinal, até mesmo os deuterocanônicos e outros apócrifos atestam para o fato dos livros já aceitos pelos hebreus que teriam status canônico pela evidência profética e infalível como sendo os 39 livros que reconhecemos. Eclesiástico cita no seu prólogo a tríplice divisão entre Lei-profetas-escritos. E, o apócrifo Apocalipse de Esdras (IV Esdras) diz:

"E aconteceu que quando se cumpriram os quarenta dias, o Altíssimo falou comigo, e me disse: Os vinte e quatro livros que escrevestes primeiro, torna-os públicos para que aqueles que são dignos e aqueles que não são dignos possam ler daí; mas os [outros] setenta os guardarás e os entregarás aos sábios do teu povo."
The Apocalypse of Ezra. Transl. G.H. Box. London: SPCK, 1917; 14:45-46, p. 113

E como dito antes, o testemunho de Flávio Josefo que é registrado muito antes de Jâmnia nos mostra que os deuterocanônicos não eram tidos com status canônico. Mas, é claro que o "Conde" do vídeo já sabia disso, é por isso que apela logo em seguida para a seguinte objeção, a de numero 10.

10 - Alegar que os judeus são guardiões das Sagradas Escrituras, em particular quanto ao Antigo Testamento, é negar a autoridade da Igreja. Aceitar a autoridade dos judeus como guardiões das Escrituras é negar os evangelhos que foi rejeitado pelos judeus. A tradição judaica moderna rejeita o Cristianismo, logo, os judeus não tem autoridade no reconhecimento do cânon.

Resposta:

Errado! Além de espantalho e puro ad hominem, estas alegações do "Conde" não passam de puro romantismo alá romano já respondido acima. No mais, alegar que os judeus palestinos da era pré-cristã são os guardiões da Revelação Divina que compreende ao Antigo Testamento é confirmar a autoridade apostólica de Paulo que sob inspiração do Espirito Santo registra:

(..)porque aos judeus foram confiadas as palavras de Deus.
(Romanos 3:2)

Que isso significa? Significa que quanto ao ANTIGO TESTAMENTO é aos judeus que produziram seus escritos que repousa a autoridade em reconhecer o cânon do ANTIGO TESTAMENTO. Agora, os judeus não tem nenhuma autoridade sobre o cânon do NT, porque este foi confiado à Igreja Cristã.

Ao que parece toda a recusa do "Conde" em aceitar isto se deve ao fato dos judeus terem rejeitado a Cristo, mas a isto, o apóstolo Paulo que também é judeu, muito bem responde:

"Pois quê? Se alguns deles foram infiéis, anulará, porventura, a sua infidelidade a fidelidade de Deus? De modo nenhum! Deus tem que ser veraz e todo o homem mentiroso, como diz a Escritura: Para que sejas justificado nas tuas palavras e triunfes ao ser julgado." (Romanos 3:3-4).

Resumidamente o "Conde" reconhece que os JUDEUS de fato não aceitam os deuterocanônicos, há de engolir agora que muito antes da era cristã eles já não aceitavam.

Pode-se ver mais sobre isso (aqui) e (aqui).

11-  Lutero quis tirar textos da Bíblia como o Apocalipse de João, a Carta de Tiago e outros. "Lutero disse que a Carta de Tiago era uma palha que deveria ser queimada".

Resposta: 

Outra mentira do "Conde". Trata-se aqui dos escritos de Hebreus, Tiago, Judas e Apocalipse que sem dúvida, Lutero não os tinha ao mesmo nível que os outros livros. Em todo o caso, insistiu em que tal era a sua opinião, a qual não desejava impor a outros, e que não pretendia tirar esses livros do Novo Testamento (Metzger, o.c., p. 243).

O que Lutero fazia é classificar níveis do cânon para o NT. Ou melhor, divisões segundo a importância e conteúdo de cada livro e nisto é que ele menciona Tiago como uma carta de palha se comparada as outras obras do NT em sentido cristológico dado em que o quanto cada livro dava testemunho de Cristo.

O que diz Lutero no Prefácio geral ao Novo Testamento é:

 "Numa palavra o Evangelho de João e a sua primeira epístola, as epístolas de São Paulo, especialmente Romanos, Gálatas, e Efésios, e a primeira epístola de Pedro são os livros que te mostram Cristo e ensinam-te tudo o que é necessário e salvífico saberes, mesmo se nunca visses ou ouvisses qualquer outro livro ou doutrina. Portanto, a epístola de São Tiago é realmente uma epístola de palha, em comparação com estes livros, porque não tem nada da natureza do evangelho relativo a isso. Mas mais sobre isto noutros prefácios" (Prefácio ao Novo Testamento)

Fato interessante é o que diz a Enciclopédia Católica, em relação à carta de Tiago, que :


"no século XVI Erasmo e Caetano contestaram a sua natureza inspirada"
Epistle of St. James. The Catholic Encyclopedia [Fonte]

Este "Caetano" que se refere aí é o famoso Cardel Cajetan ou Tomás de Vio. Vemos aí que até mesmo autoridades católicas contemporâneas aos reformadores, questionavam sobre os próprios livros do NT. E que Lutero NUNCA REMOVEU ESTES LIVROS já foi referido acima no inicio do artigo onde se pode ver digitalizada a primeira bíblia de Lutero com todos os 73 livros (aqui). O que a Enciclopédia Católica menciona (como também o "Conde") é que Lutero teria repudiado a carta para favorecer a doutrina do Sola Fide, o que vimos ser no caso, um equivoco sobre suas reais intenções.



Dado estas respostas... aguardo para o que será respondido por parte do "Conde", se é que responderá alguma coisa. Espero que seja algo melhor e mais relevante que o exposto no seu vídeo raso e de conteúdo tendencioso, púbere e seletivamente ignorante. Por hora, vou assistir seus demais vídeos elaborados contra nós, e em breve postarei mais respostas.

Att: Elisson Freire


6 comentários:

  1. Parabéns, não ficou pedra sobre pedra, como de costume. Será que esses caras não cansam de insistir em mentiras? Eu começo a crer que só fazem isso para manipular a verdade mesmo, e manter os incrédulos nos seus círculos pagãos? O argumento 10 dele, por exemplo, é totalmente manipulado. Ninguém diz que os judeus são os guardiões das Sagradas Escrituras, mas qualquer um que entenda um pouquinho de Bíblia sabe que eles são o povo separado por Deus até a vinda de Cristo, então, logicamente, eles eram os responsáveis pelo cânon do velho testamente. Isso é a coisa mais clara do mundo. Aí desvirtuam a informação substituindo a parte pelo todo para enganar. Tenha a santa paciência. Desonestidade total.

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    1. Se vc der uma acompanhada em no minimo 3 videos deste sujeito, vai se espantar no poço de estupidez e ignorância seletiva que ele demonstra ser. É um típico sentimentalista frustrado com dor de corno por Roma. Em breve pretendo fazer mais vídeos em resposta a este ser insano!

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  2. Fico feliz que tenha respondido um vídeo dele! Tenho percebido que muitos protestantes estão virando (ou ficando confusos) católicos por causa dele.
    Parece não ter ninguém que se disponha a respondê-lo. Fiquei preocupada.
    Parabéns pelo artigo!

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    1. Iremos responder a outros vídeos Yasmin, para ao menos frear alguns equívocos propagados pelos tais youtubers que se configuram como pedantes anti-protestantes. Você pode contribuir nos indicando abordagens e apontando aquilo que publicam, e quais respostas gostaria de ver no blog.

      Abraços!

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  3. Parabéns, Elisson Freire! Suas fontes são, antes de tudo, fantásticas!!!

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  4. Senhores eu gostaria muito de saber sobre a questão de a Septuaginta ser supostamente rejeitada por protestantes por conter livros deuterocanônicos.
    Se eu não estou cometendo disparate e isso já está explicado nesse texto do Elisson.

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